No início da década de 1990, uma névoa cinzenta e chuvosa vinda de Seattle invadiu as rádios, as TVs e as telas de cinema de todo o planeta.
O som denso, sujo e distorcido de guitarras, apelidado pelo mundo de grunge, deixou de ser um fenômeno underground local para se tornar o pulso cultural de uma geração inteira.
Se o álbum Nevermind, do Nirvana, serviu como o grande estopim musical de 1991, o cinema não demorou para captar esse sentimento de apatia, desilusão e busca por identidade da Juventude X.
Mas longe de ser apenas um pano de fundo, Hollywood e o cinema independente foram fundamentais para catapultar o movimento para o grande público através de trilhas sonoras históricas.
Singles (192): O Retrato Fiel da Cena de Seattle
Quando o cineasta Cameron Crowe decidiu gravar um filme sobre a vida afetiva de jovens adultos de 20 e poucos anos em Seattle, ele não imaginava que seu projeto capturaria a história no exato momento em que ela acontecia.
Lançado no Brasil como Vida de Solteiro (1992), o filme trouxe uma trilha sonora lendária lançada pela Epic Records antes mesmo de a produção chegar aos cinemas. O disco vendeu milhões de cópias e reuniu gigantes do ecossistema de Seattle:
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Pearl Jam: Além de ceder faixas marcantes como “State of Love and Trust” e “Breath”, os integrantes Eddie Vedder, Stone Gossard e Jeff Ament interpretaram a banda fictícia Citizen Dick, servindo de apoio para o personagem de Matt Dillon.
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Alice in Chains: A banda aparece em uma cena marcante tocando “Would?” em um clube noturno local. A canção, escrita por Jerry Cantrell como uma homenagem ao falecido vocalista do Mother Love Bone, Andrew Wood, tornou-se um dos maiores hinos da década.
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Soundgarden: Chris Cornell não apenas cedeu a emblemática “Birth Ritual” e a solo “Seasons”, como também fez uma aparição icônica na tela.
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Mudhoney e Screaming Trees: Duas das bandas pioneiras do selo independente Sub Pop trouxeram o peso cru que legitimou o álbum entre os fãs puristas do gênero.
O impacto da trilha foi tão avassalador que o próprio mercado fonográfico passou a usar o longa como um modelo comercial para os anos seguintes: colocar bandas emergentes em discos de filmes para transformar lançamentos cinematográficos em grandes eventos musicais.
O Espírito Rebelde do Cinema Independente dos Anos 80 e 90
Apesar de Singles ser o marco zero da estética grunge em Hollywood, a relação entre o rock alternativo e a sétima arte já vinha sendo fermentada no circuito independente.
Filmes como Juventude em Fúria (Pump Up the Volume, 1990), estrelado por Joseph Gordon-Levitt no papel de um estudante que opera uma rádio pirata na garagem, anteciparam a sonoridade que dominaria a década seguinte ao incluir faixas de bandas como Pixies, Soundgarden e Sonic Youth.
Do mesmo modo, o cult clássico Vida Sem Rumo (River’s Edge, 1986) já mostrava o peso de bandas do selo Sub Pop e do metal alternativo moldando a atmosfera sombria de uma juventude sem rumo no interior dos Estados Unidos.
Do Garimpo de Garagem aos Holofotes Globais
A simbiose entre as imagens da tela grande e o som rasgado dos amplificadores mudou a forma como consumimos música pop na década de 90. As trilhas sonoras deixaram de ser meras compilações de apoio para se tornarem itens colecionáveis e cartões de visita essenciais para novas bandas.
A fusão de camisas de flanela, coturnos gastos, roteiros reflexivos e guitarras pesadas moldou a moda, o comportamento e a linguagem do audiovisual.
O cinema deu rosto e narrativa às canções; o grunge, por sua vez, emprestou aos filmes uma alma autêntica e visceral que ecoa até os dias de hoje.
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Qual é a sua música favorita da trilha sonora de Singles? Ficou faltando algum clássico do rock dos anos 90 no cinema que marcou a sua vida?